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Não se cansem de fazer o bem.”
Tessalonicenses 3:13

o clichê não me cabe
eu sempre acabo sendo
mais ridículo ainda

pó(eta)

que meus olhos
aprendam que ver
e enxergar
são coisas diferentes
quando se ama

pó(eta)

e tendo ido
um pouco mais adiante
prostrei-me,
chorei
nunca couberam tantos infinitos
numa madrugada

pó(eta)

Se você sorrisse agora

À J. Maria,

Agora se lembrava dos tempos de moça.

Do quanto amou, sonhou, dormiu, trabalhou, juntou dinheiro e foi viajar para cidades como São Paulo e Belo Horizonte ouvindo Rock dos anos oitenta, sem nenhuma identidade no olhar. Agora se lembrava das noites mal dormidas em quartos de hotéis baratos.

A cocaína, o alcoolismo e um violão.

Ser feliz importava, ela dizia.

E eu a ouvia dizer, desde os quatorze anos, que para a gente ser feliz nessa vida, tem que fazer o que gosta. Por muitas vezes ela me perguntava o que me fazia feliz. E eu dizia – os livros me fazem feliz. Responder questões de literatura faz feliz. E sorrisos de crianças, porque sou demais apegado a essas coisas. Mas ela não entendia nada. Menos ainda sobre sorrisos de crianças ou exercícios de literatura.

Agora se lembrava dos tempos de moça.

Os anos passam rápido, murmurou.

Ontem eu te telefonava, perguntava se ela havia recebido as minhas cartas e dizia que estava com um pouco de saudades. Assim mesmo, no plural. Saudades. Hoje, minha filha chegou da escola, disse que um menino a chamou para sair depois da aula e eu disse “vá, se é o que quer”. Eu lhe perguntei o que a fazia feliz. A menina respondeu Computador, internet, shopping, óculos escuros, calças bonitas, meninos de jaquetas de couro, e celulares que passam nos comerciais de TV. Era, na verdade, uma mal criada. Igual à mãe. Eu lhe disse, pois bem, se quiser sair com o garoto, saia com ele. Mas volte antes das dez e deixe o celular ligado.

No nosso tempo de adolescente, fazíamos quase a mesma coisa. Eu te chamei para sair algumas vezes, mas você nunca quis sair comigo.

Você costumava sair com caras mais velhos e que conversavam sobre banda de rock e comportamento de banda de rock. E você lia revistas que falavam sobre bandas de rock e me perguntava qual era a minha banda de rock predileta. Eu respondia “The Beatles” e você me dizia que eles não saíam todas as semanas nas revistas de bandas de rock. Sorríamos por um tempo. Mas o meu sorriso sempre durava mais que o seu. O seu, no entanto, era infinitamente mais bonito.

Hoje está aí, no teu quarto escuro, na tua seca e na tua risada amarela, relembrando a mocidade. Então, por fim, o que a vida fez de nós?

Aquela vez que ainda não era inverno, mas chovia e fazia muito frio e eu tentei encontrar a casa da tua avó, porque era a semana do dia dos namorados e eu queria te presentear com uma flor.

Eu conhecia todos os bairros da cidade, porque tinha uma espécie de GPS mental e com a minha bicicleta azul, eu conhecia cada canto daquele município encantado. A conclusão é que demorei meio dia para encontrar a casa da tua avó e quando cheguei, ela me sorriu e disse para eu entrar.

Eu entrei e ela me perguntou, entusiasmada: “Você quer comer torradas, Felipe? A Jéssica me fala muito sobre você.”

E eu disse que não me chamava Felipe, disse que meu nome era Henrique e que era um prazer conhecê-la (e vá para a puta que te pariu com as tuas torradas, sua velha do inferno, eu pensei, mas não disse porque estávamos quase no inverno).

Eu não disse mais nada porque chovia, porque fazia frio e porque eu não me chamava Felipe.

Hoje pela manhã também estive me lembrando da mocidade. Acho que vão vir aqui em casa e me levarão para o Hospital.

Lembrei de quando tirei a roupa da primeira garota e seu sutiã era branco, sua calcinha era vermelha, e de repente alguém bateu à porta.

Eu estive me lembrando de como éramos meio filhos da puta com as nossas ideologias e de como o mundo que sonhamos, na verdade hoje continua a mesma merda. Só que uma merda envelhecida, com a nossa cara, como nós mesmos. Uma merda mórbida.

Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

As tardes de domingo. Eu dizia que queria morrer num domingo. E estou aqui.

Eu dizia que queria ser escritor, professor de literatura, que eu não me casaria, que eu teria um cachorro e uma chácara em Minas Gerais, e que morreria numa bonita tarde de domingo.

Mas cá estou eu. Nos teus braços. E você nos meus, em pensamento. Nosso tempo de infância, por alguma razão nos reuniu para a despedida final.

A minha tosse, o meu pulmão e a minha literatura, que você tanto odiou por um tempo, acima de todas as demais coisas, estão nos saudando agora. Estamos juntos. Que tal um sorriso?

Talvez o teu sorriso seja ainda tudo aquilo que eu disse que era. Talvez ele ainda seja maravilhoso. Um pouco amarelado, envelhecido e triste, mas ainda maravilhoso. Teu câncer não a impediu de sorrir. E a minha loucura não me impediu de sonhar.

São duas da madrugada e você adormeceu no teu quarto escuro. Eu te vi adormecer no teu quarto escuro e senti pena.

Eu coloquei uma canção da tua adorada década de oitenta. Acendi um cigarro e fumei como se fosse o último. “Lembra de quando a gente era criança, Henrique?” - Você me pergunta, de repente, ao acordar e ouvir tocar Aerosmith. Eu digo Sim, claro que eu lembro. Você nunca aceitava sair comigo. A gente dá uma risada boa. Dessa vez, a minha risada é mais longa que a tua. Uma tosse interrompe a orquestra.

Você tá bem? - Pergunto.

Acha que eu tô bem?

Sei lá, essa tosse é o que?

O médico disse Pneumonia. Mas sei que é coisa pior. Sempre acredite nos olhos de um médico, Henrique. Nunca nos lábios, sempre nos olhos. Promete?

(Silêncio)

E eu, pareço bem? - Pergunto.

Não, Henrique. Você tá velho demais pra mim.

Mas ainda ouço Rock dos anos oitenta…

É, pelo menos isso. E finalmente virou homenzinho!

Relembramos a infância, os passeios nos parques da cidade. Depois ela me pergunta por onde eu estive nos últimos vinte e dois anos da minha vida. Pergunta porque sumi, porque não mandei notícias, diz que sentiu a minha falta e que é bom ter um amigo às vezes pra gente conversar.

São três da manhã e ela acordou subitamente para me perguntar sobre os meus últimos vinte e dois anos. Pergunto se eu fumar a incomoda. Ela diz que sim. Eu apago o cigarro e me sirvo de vodca. Digo que estive vinte e dois anos casado, e que tive uma filha, e que comprei uma casa, móveis, dois carros, um cachorro, sapatos italianos, perfumes franceses, tapetes indianos, peixinhos vermelhos e brancos do oceano Índico e uma tartaruga que eu não sei da onde veio. Disse que agora minha casa está para mulher e filha, meu carro está com a documentação atrasada, meus peixinhos morreram, meu cachorro fugiu, minhas calças rasgaram e meus sapatos foram doados para um abrigo.

Começo a chorar. Não pelo fim dos bens materiais, pela sua degradação, mas por mim, por nós e pelo tudo. O tudo se degrada lentamente. Não é como o sol, que nasce e morre. O nosso tudo é um sol, de fato. Mas que morre para sempre… Não existe aurora para a realidade. Nunca.

Ela abriu um sorriso. Ela tossiu e abriu um sorriso tão bonito que os seus olhos brilharam feito duas estrelas. Depressivo, Henrique! Sempre depressivo! Ela diz. Eu quis saber a razão. Eu quis tirar uma foto. Ela não me disse nada, apenas sorriu o sorriso mais bonito das últimas décadas! Parecia ter quatorze anos novamente. Nós, os fodidos, encantados e fodidos por causa de um sorriso! Lembra dessa música? Lembra, você lembra, Henrique, dessa música? Caralho, Henrique, era a nossa música! Puta que pariu, Henrique, isso é Coldplay, você lembra?! Claro que eu lembro. Já não faz frio lá fora. Os dias andam meio depressivos. E eu digo que sim, que eu me lembro e pergunto por onde ela andava ao longo dos últimos vinte e dois anos!

Ela me diz: Igual a todo mundo, eu envelhecia…

Mas parece a moça virgem que eu conheci nos tempos de escola, e que deixou de ser virgem e que eu chorei feito um gayzinho romântico quando descobri.

Ela parece a Jéssica da escola, que nunca se casou e que sempre sentava nos fundos da sala para conversar com os anarquistas. Ela parece ser novamente a minha Jéssica da escola, a proparoxítona mais perfeita do mundo. A Jéssica da avó filha da puta, do cabelo castanho, dos olhos azuis. Ela parece ser uma volta ao passado. Meus olhos estão cheios de lágrimas às três da manhã.

Não foi um juramento. Não tínhamos um acordo. Mas quando eu morrer, sei que ela vai morrer um pouco comigo. E quando ela morrer, eu sei que morrerei parte com ela. Quem morrer primeiro sai no lucro por deixar o débito do sofrimento e da saudade ao outro que fica.

Ela tosse. Está com febre. Ela tosse bastante e pede que eu ligue a TV. Lembra quando a gente assistia desenhos japoneses e comentava sobre as minisséries da Warner Bross? Eu pergunto. Ah, caramba, os anos passaram tão depressa… A vida serviu para foder com a gente e agora, o que é que acontece?

Agora eu morro, Henrique…

Por que?

… Não houve respostas.

Dessa vez ela tosse muito forte e sente dificuldade para respirar. Suas mãos não tremem, seus olhos não estão desesperados, mas seus lábios tentam me dizer alguma coisa.

Azuis, os seus olhos estão fixos em mim. Ainda são os mesmos de outrora. Têm a mesma glória e o mesmo vulto de nobreza. Ela tosse. Sai sangue. Ela lacrimeja, fixa. Os lábios tremem.

Agora se lembra dos tempos de moça. Quando no colegial, eu escrevia um conto no meio da aula de matemática e dizia – Hey, Jéssica, pode ler o que eu escrevi? - e ela dizia – Porra, Henrique, por que você sempre mata os seus personagens no final?!

Ah, a vida é quem nos mata nos seus finais… - E ela me achava pessimista. E todos me achavam pessimista. Algumas vezes eu tomava café sozinho.

Dessa vez, ao término de três minutos, quatro, no máximo, ela ainda permanecia com os olhos fixos em mim. Mas já não lacrimejava. Os lábios não tremiam. E o coração não pulsava mais.

Daquela madrugada em diante, eu descobri que morri com Jéssica. E não havia nada que eu pudesse fazer. Caminhei para casa, fumei alguns cigarros, tomei alguns porres de vodca e chorei.

Chorei demais pelas ruas da cidade. Chorei como nunca. A noite de ontem avançava sem estrelas. Estava frio. E eu fumava o último cigarro do sétimo maço de cigarros fumados num só dia, me lembrava da infância que tive, e tossia.

Fazia frio. E eu tossia bastante.

Heitor Henrique.

Beleza não vale nada e depois não dura. Você nem sabe a sorte que tem de ser feio. Assim quando alguém simpatiza contigo, já sabe que é por outra razão.”
Charles Bukowski.
We don’t create a fantasy world to escape reality, we create it to be able to stay.”
Lynda Barry, What It Is.

(Não chore) com meus dedos sobre a borda é uma visão tão linda
(Por dentro) eu nunca amei nada, até que amei você
(Confie) eu estou no limite, o que posso fazer?
(Luz do sol) eu nunca amei nada, até que amei você
(Não chore) com meus dedos sobre a borda é uma visão tão linda
(Por dentro) eu nunca amei nada, até que amei você
(Confie) eu estou no limite, o que posso fazer?
(Luz do sol) eu caí…

Queens Of The Stone Age

Ele gosta de você e está escrito na sua testa que você sente o mesmo. Você poderia ir até lá e falar com ele, não tem problema. Você poderia tocá-lo e acenar, é um exemplo, só um exemplo. Pelo que você sente, querida, poderia até se arrastar até os braços dele.Só que você é uma garota segura, e eu tenho orgulho disso, você não se queixa e não vai atrás de quem não te procura. E é assim que eu sempre quis que você fosse.”
Você não sofre, apenas adia a dor. Disse minha mãe.
My first love
was some insignificant girl
when it should have been
myself.”
Michelle K., First Love.

não peço pra namorar, você riria e morreria sem ar